Dino Rocha, referência na música regional em Mato Grosso do Sul

Dino Rocha, simbolo do Chamamé.

Dino Rocha, simbolo do Chamamé.

Naiane Mesquita

Aos 9 anos de idade, Dino Rocha decidiu tocar acordeon. O desejo repentino, impossível de ser controlado tornou-se parte essencial da sua história, de um artista que conseguiu trabalhar exatos 56 anos de carreira exclusivamente de música. Caçula de dez filhos e autodidata, Roaldo, como está na certidão de nascimento, se interessou pelo instrumento quando descobriu a morte precoce do sanfoneiro da família. Dali em diante, homenageou sem parar o irmão que tinha partido. “Eu vi meu irmão, vi ele fardado duas vezes, com a mão atrás da cabeça, dando uma risadinha, quando eu olho, que eu fixo o olhar, ele não está mais ali. Ele tocava sanfona, eu acredito que eu vi meu irmão, duas vezes, ele não falou nada, mas me olhava como se estivesse querendo dizer  que eu estava tocando errado”, conta, um emocionado Dino Rocha.

Natural de Jutí, antiga Santa Luzia, Dino Rocha cresceu afastado de qualquer instrumento. Caçula de dez irmãos, só descobriu o desejo de tocar sanfona no dia que o irmão faleceu. Um acidente no quartel de Ponta Porã levou precocemente o representante musical da família. O jeito foi homenagear quem partiu. “Eu comecei a tocar com nove anos de idade. Nem sanfona eu conhecia. Meu irmão faleceu e me deu aquela vontade de tocar a sanfona. Me arrumaram uma de oito baixos, que em seguida eu já toquei. A gente falando assim parece até esquisito”, ri.

Autodidata, Dino nunca teve aula do instrumento. A mãe alemã, o pai filho de gaúcho com argentina, Dino aprendeu música ouvindo e reproduzindo o que escutava nas redondezas de casa. Com a morte do irmão, a família se mudou para Ponta Porã. Na fronteira com o Paraguai, o dom e a paixão pela música cresceram ainda mais. “Em trinta dias eu não queria mais a sanfona porque era muito pequena. Arrumaram uma maior, de 48 baixos. Mudamos para Ponta Porã quando eu tinha 12 anos. Um ano depois eu já tocava em baile, participando de um conjunto em Pedro Juan Caballeiro”, relembra

Na necessidade, o jeito foi investir no que sabia fazer de melhor. Apaixonado por chamamé, “quanto mais eu conheço, mais gosto”, Dino viajou o país inteiro mostrando o som fronteiriço sobre as influências da Argentina, Paraguai e Bolívia. “Toquei, viajava, tinha 15, 16 anos. Eu, minha sanfona e minha malinha de roupa. Quando foi em 1972 vim para Campo grande. Deus que orienta o que eu ia fazer naquele tempo em Ponta Porã. Nem rádio tinha. A rádio era no Paraguai”, conta.

Hoje, aos 65 anos, Dino relembra que chegou com o nome de batismo na Capital. Foi Zacarias Mourão que o recebeu de braços abertos e um apelido. “Cheguei aqui na época e tinha uma dupla famosa, Amambai e Amambaí. Eu não tinha um nome artístico, o saudoso, poeta, Zacarias Mourão, foi quem me apelidou de Dino Rocha e levou o trio  para São Paulo”, diz.

Com mais de 100 composições, Dino Rocha acredita que o processo de criação é espontâneo. “Eu gravei um disco antigamente era LP, com Amambai e Amambaí. Foi nosso primeiro disco, eu tremia mais que vara verde, nunca tinha visto um estúdio e nesse disco eu gravei Gaivota Pantaneira. Em 1973 para 2016 fez 43 anos, mas parece que eu gravei ela ontem”, conta. O grande sucesso da carreira fez fama por causa da novela Pantanal, lançada em 1990. “Gaivota tocou em Pantanal, fiz três participações com Sérgio Reis e Almir Sater. Eu gravei mais 30 discos, entre CD e LP. Faz tempo que eu dei uma relaxada, mas essa semana eu vou começar a gravar aqui. Um disco novo e instrumental” comenta.

Ao lado de outros músicos, como Paulo Simões e Guilherme Rondon, Dino Rocha integra ainda o Chalana de Prata, grupo que toca grandes canções da história de Mato Grosso do Sul. “Gravei, fui para São Paulo, gravei com os Filhos de Goiás, dez anos, três discos. Eu 1993 eu gravei o primeiro CD. Tenho vários discos com o Chalana de Prata que hoje se reúne esporadicamente. O Celito trabalha na comunicação, o Paulinho não quer mais viajar, o Guilherme vive no Pantanal, eu toco aqui, ali, aniversário, casamento, desquite. De vez em quando a gente se reúne e formamos  o Chalana de Prata.

Nem mesmo com todo o conhecimento que adquiriu  Dino Rocha deixou de amar o chamamé. “É o que eu sei e o que eu mais gosto. Fiz uma turnê para o SESC do Rio de Janeiro, 105 shows, do Brasil inteiro, de Manaus, ao Acre e Rio Grande do Sul, só chamamé. O ano passado eu fui fazer um show na Bahia, festival de acordeon, tinha italiano, português, australiano. O criador da música Esperando na Janela, Targino Gondim foi quem organizou. A apresentação foi no melhor teatro da capital baiana totalmente lotado. Eu representei Mato Grosso do Sul, toquei uma música e antes de tocar a segunda, uma galera na platéia gritou Gaivota Pantaneira. Rapaz, aquilo me mexeu”, relembra. Juntos, o auditório inteiro reproduziu a canção. “Eles não me tratavam como sanfoneiro, mas sim de mestre”, diz, surpreso. Para quem tocou ao lado de Dominguinhos e sempre defendeu o chamamé, a vida tem sido uma recompensa. “90% das minhas canções fui eu que fiz. A primeira foi em 72, fui criando, inventando”, diz.

Segundo o instrumentista, infelizmente  nos dias atuais hoje, o que se vê de  pessoas que nem sequer afinam o violão direito, mas se dizem músicos. “Antigamente era um sacrifício entrar na televisão, hoje é bem mais fácil. Eu não tinha conhecimento, nunca fiz nada além da música. Só música, depois que eu comecei a gravar e entender as coisas, foi com ela que eu criei meus três filhos, bem ou mal, foi só da sanfona, essa sanfona tem mais de 40 anos que eu tenho ela, comprei em 1976 lá em Minas Gerais”, frisa. Com uma carreira tão extensa, Dino nem pensa em parar. “A gente cansa, mas não enjoa”. Sobre o título de maior chamamezeiro do país, o artista nem rejeita o agrado. “Eu fico quieto quando dizem, porque se você pensar bem não tem outro. Já tiveram antes de mim, como o grande Zé Correia, mas hoje não sei mais”, reflete.

 

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